A luz [elétrica] paira sobre a rua que naquele momento está distante, vazia e deserta. Aquela mesma rua que sustentou o dia inteiro um movimento absurdo - pesado e fluido ao mesmo tempo - e essencialmente urbano. Parece moderna, autônoma, racional, e de tão racional, canaliza de tal forma o pensamento e leva-o para lugar nenhum. Essa canalização pode ser comparada a um rio poluído e/ou canalizado, que, a partir do momento em que tem o seu fluxo sob e sobre o concreto, deixa de ser vivo, calmo, perde suas tradições, sua veracidade e talvez sua forma, mas, principalmente, não mede suas consequências, isto é, a sua foz é incerta. A rua - também chamada de avenida - está em paralelo com tal rio canalizado ou poluído e um bom exemplo para esse caso é a Marginal Tietê
Só sei que naquele momento de observação a rua era rua realmente e só a enxerguei porque havia luz elétrica.
Essa luz, invenção que modernizou de tal forma a humanidade, chega até aquele determinado ponto da rua por meio de fios condutores de eletricidade e de energia. Portanto, esses fios foram colocados de maneira estratégica, traçando um paralelo com a rua. Poderíamos dizer então que foram colocados em função dela? Não posso dar uma resposta, somente sugeri uma questão que a priori parece simples. Vou além, faço-me outra pergunta um pouco mais sugestiva: tal luz, traçada em paralelo com tal rua, faz o seu determinado papel, isto é, realmente ilumina o caminho e o fluxo (mesmo considerando que o fluxo noturno é menor que o diurno)? Perguntas não faltam, respostas sim. Entretanto, essa luz funciona como ponto comum entre a rua e a calçada.
Pois é, nesse exato ponto as calçadas entram como objeto de análise também. Elas têm, por um lado, uma ligação grande com tradições ahistóricas dos homens. Nas sociedades primitivas o caminhar era essencial e essencialmente humano, ou seja, andavam em busca de algo, mas utilizando de suas próprias forças. Nas calçadas, os indivíduos de hoje, de determinada maneira, se arriscam a utilizar forças próprias em meio a tantas forças mecânicas. De certo modo, podem ser considerados “nômades modernos”. Tudo isso pra deixar claro que as calçadas – nessa determinada análise - são o que sobraram de ações biologicamente humanas, as quais, também de algum modo, foram canalizadas e estreitadas, dando espaço às novas tecnologias que apareciam, assim, parece-me evidente que tais tecnologias foram guiando e determinando um simples andar dos indivíduos. Podemos dizer então que, apesar de vivermos uma época em que quase tudo está em função do tempo, as calçadas, ou quem as utilizam, talvez sejam menos velozes em relação ao que ocorre nas ruas? Penso que não, mas insisto em sugerir.
Em um olhar rápido e pouco questionador, a rua, a luz e a calçada pareciam isoladas e não tinham importância alguma, pois fazem parte e estão cooptadas no cotidiano da vida moderna. Com um olhar um pouco mais atento, observador e absorvedor consegui tirar algumas conclusões e estudar fatos como objetos. Claro que poderia ter analisado de diversas maneiras, e muitos complementos poderiam ser feitos, mas procurei seguir um fluxo de consciência de observação, que resultou em uma maneira simples e talvez questionadora.
Portanto, a partir do momento em que não criamos uma distância abstrata para entender a sociedade em que estamos inseridos, mergulhamos de cabeça nela, isto é, agimos de maneiras muitas vezes automáticas e programadas, e, essa aceitação sem questionamentos, pode ser a pior inimiga do agir.
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