quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

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acontece que eu me senti, por um momento, excluído.

acontece que algumas coisas apresentam funções inevitavelmente necessárias - hoje.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dilúculo

A noite acabou sem me dar explicações. Sem o mais nem o menos da indiferença. Quando suspirei, desse meu canto quieto, o Sol suspirou por detrás dos prédios. Não fiz questão de ouvir – e nem dizer – “bom dia”, pois meu corpo naquele instante era só noite e vagar. Sequer acendi um cigarro. De aceso já bastava o sol.

Aos poucos me acostumei com a ideia de que não se contesta a luz – nem a escuridão, porque o outro lado não é conhecido. Eis que na serenidade do incontestável resolvi silenciar no silêncio que acabara de se acabar. O movimento dos automóveis era mais intenso agora que o canto dos pássaros restantes naquele ninho de argamassa.

Estático, fiz questão de enfrentar o dia com postura de vencedor, mesmo sabendo que havia perdido. Isto mesmo: havia perdido Aurora de minha cama. Ela também era noturna e, por isso, resolveu ir embora, como quem volta para o esconderijo. Penso que seu nome só era esse pelo prazer da contradição. No quarto, restamos eu e o Sol ofuscante na madeira da cabeceira, como se ele mesmo não tivesse coragem de brilhar meu rosto.

Quebrando a rotina, não fiz questão de buscar o jornal, pois, de desgosto já bastava aquela manhã. Deixei que o porteiro ficasse com ele. E naquele meu pedaço de vida, o único prazer em ler o jornal era sustentado pelo fato de que Ela tinha uma coluna nele. Apesar de Aurora também gostar da noite, era Ela que dava cor e gosto às minhas manhãs. O problema é que fazia muito tempo que eu não gozava de uma plena noite de sono e sonhos bonitos. Entretanto, era nos escritos dela que eu dormia inteiramente. Como se eu lesse aquela combinação doce de palavras e acordasse de uma boa noite de sono. Ou mesmo dormisse em pleno sol da meia-noite e sonhasse com “revontuli”.

Só que aquele dia iria ser, no mínimo, diferente. Tive vontade de alcançar Aurora na próxima esquina e fazer tudo diferente. Diferente? Naquela morbidez daquele meu pedaço de vida seria possível um dia diferente?

Peço licença, pois ele acabou de começar.
 
 
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