“Dol”! Era o que o eu, ainda muito pequeno, gritava nas madrugadas em que meu pai acordava para jogar bola comigo. Não me lembro dessa época, mas sei que essa paixão por futebol permaneceu durante toda minha infância. Se existia algum modo de ver o mundo naquele momento, era sob a ótica de um jogador de futebol, pois tentava agir como um deles. Hoje em dia, isso me parece algo demasiado néscio, entretanto, os jogadores eram minhas grandes referências além-família. O mundo era uma grande bola de futebol.
Lembro-me de sempre imaginar uma bola em meus pés, numa jogada de craque. Também me lembro de meu pai usando dessas minhas imaginações para dar ordens do tipo: “um jogador de futebol lava o rosto quando acorda”, “os jogadores sempre usam chinelo para não pegar friagem”, entre outras coisas. Tão incentivado, joguei futebol de salão e de campo, mas eis que surgiu um impasse: eu engordei e acabei indo para o banco de reserva. Como qualquer criança que é barrada de algo que tem muita vontade de fazer, comecei a perder o encanto.
Evidentemente, ao longo do tempo as referências começaram a mudar. Comecei a estudar violão aos sete anos de idade, mas só aos dez anos me dediquei realmente às aulas e montei minha primeira banda. Aos doze, comprei meu primeiro contrabaixo. Nessa fase, meu modo de ver o mundo sempre foi através dos artistas que eu gostava e de suas composições. Ao mesmo tempo, comecei a gostar de esportes como o surf – precário das férias – e o skate – de quase todos os dias (que, inclusive, me fez emagrecer) – o que, com certeza, também conformou meu olhar à época. Foi um momento importante de socialização: minhas amizades se intensificaram e uns namorinhos surgiram.
Aos quinze anos, quebrei o braço andando de skate, o que me custou um ano de recuperação. Esse foi um período em que minha percepção das coisas se alterou bastante. Fiquei mais introspectivo, passei a refletir mais sobre as minhas decisões. Mudei de escola e conheci pessoas novas que me mostraram que a vida não tinha um só sentido. A minha participação no Voto Consciente vem dessa descoberta. Isso talvez explique também parte da minha decisão de fazer Ciências Sociais, pois, em primeiro lugar, percebi que não era obrigado a seguir o sentido dado ou já traçado por alguém; depois, estudar relações sociais sempre implicou em diversos sentidos teóricos de análise que evidenciam diversos modos de vida.
Nesse contexto, aprendi e continuo aprendendo que o mundo existe para ser, ao mesmo tempo, oculto e descoberto, imaginado e experienciado. Por isso, apesar do esforço de manter algumas intactas, minhas referências mudam todos os dias, a cada página lida do jornal, de um livro, de uma aba do navegador, de um programa ou filme assistido, entre muitos outros. No mesmo sentido, alguns autores nos mostram que nossos referenciais de espaço-tempo são voláteis. Pois bem, passamos a confundir “aqui” com “lá” a todo momento. Estudos calculados afirmam que usando como parâmetro a intensidade de aceleração tecnológica dos anos 2000 e projetando aos próximos 100 anos, eles teriam um impacto de 25000 anos. Os vários tipos de tempo parecem não se relacionar: o geracional, o sazonal, o público, o cibernético, o do relógio... Parece-me natural que estejamos em crise o tempo todo! No entanto, busco me adaptar a ela.
Dessa forma, atualmente – com alguma inspiração deleuziana –, me vejo fazendo tentativas de buscar não por aquilo que “é”, mas por aquilo que “e”, que liga, agencia. Aquilo que não está dado como objeto – centro das atenções –, mas está entre. Seja no futebol, na música, no skate, nas Ciências Sociais ou no Voto Consciente.
Por fim, me vejo sendo.
